Alexandre Póvoa tem sido bastante duro com a equipe que lidera na Modal Asset Management. Cobra qualquer descuido e parece até pessimista em relação ao futuro. Problemas na administração dos fundos de investimentos? Muito pelo contrário. Com uma performance que virou destaque em plena crise global, o sócio do banco Modal poderia estar comemorando os últimos prêmios ou a marca de R$ 1,5 bilhão de patrimônio da asset estruturada por ele há apenas cinco anos. Mas prefere seguir a cartilha de liderança que aprendeu nos tempos de capitão do time profissional de basquete no Flamengo. “Nas fases de euforia, digo que precisamos olhar para a frente, não para os prêmios conquistados”, afirma. “Se as coisas vão mal, sou o mais otimista de todos, mostro que podemos corrigir os rumos e valorizo qualquer acerto. Aprendi no esporte que nunca se está tão alto que não se possa levar um tombo, nem tão baixo que não se possa se recuperar.”
Do alto de seu 1,90 metro, a figura de Póvoa se impõe. Mesmo sentado em uma sala de reuniões, fica fácil imaginá-lo em ação no time bicampeão brasileiro e quatro vezes campeão carioca. “No final, já estava ficando baixo para jogar”, ressalta, sem conseguir apagar as lembranças de vitória nas quadras. Não só hoje, mas ao longo de toda a carreira profissional, ele aplicou muitos dos ensinamentos dos 11 anos de basquete — inclusive no que se refere aos “tombos”. A crise da marcação de mercado, provocada pelo aperto do Banco Central para que as instituições financeiras atualizassem os preços dos títulos nas carteiras, em 2002, pegou-o à frente da asset do ABN Amro, onde era diretor de investimentos, administrando R$ 17 bilhões. “Todas as assets de varejo sofreram muito”, lembra. “Em julho de 2002, falavam que você era muito agressivo se tinha um título vencendo em janeiro de 2003. Hoje é uma maluquice dizer algo assim, mas na época não era.”
Póvoa saiu do ABN (“Meu jogo de cintura nunca foi tão grande”) e esperou para ver se o Brasil ia mesmo acabar. Enquanto a eleição do presidente Lula revelava-se um fato político bem diverso dos temores do mercado, o economista escrevia seu primeiro livro, “Valuation”, até hoje com boas vendas e adotado por faculdades. Póvoa foi então convidado para montar a asset do Banco Modal, em fevereiro de 2003. O desafio acabou coroando uma carreira consistente.
“É uma experiência de CEO, porque preciso pensar não só na gestão, mas no negócio como um todo, na estratégia de vendas, de produto, na responsabilização junto à CVM.” Para quem deu uma guinada, aos 22 anos, abandonando o sonho de ser jogador de basquete, a coerência na trajetória a partir de então tornou-se importante. “Não me considero especialmente brilhante, então a forma que encontro para ‘chegar lá’ é sempre com disciplina e planejamento.”
Recém-formado em economia, mas sem a experiência de estágios (“Só tinha tempo para treinos e competições”), Póvoa montou um plano para superar o “gap” em relação a seus colegas de faculdade, o que incluiu um MBA no Ibmec. “Em 1991, ainda era um diferencial”, comenta. Em um estágio tardio no BicBanco, na experiência como trainee no Banco Inter-Atlântico e no primeiro emprego, na Fundação Eletrobrás, a paixão pela renda variável se cristalizou. “Sempre gostei, mais do que a renda fixa.”
Mas foi em 1994, com a eclosão da crise do México, que Póvoa tomou a decisão que o faria superar definitivamente o tal “gap”. “Percebi que aquele era o primeiro grande evento da globalização, e que eu precisava fazer um MBA fora do país ou estaria morto.” Acabou conseguindo uma bolsa integral do Banco Mundial para estudar na Stern School of Business, na New York University. “Foi espetacular. Além de aulas com alguns papas do mercado, tive a oportunidade de trabalhar dez meses no Morgan Stanley, na parte de pesquisa de renda variável para a América Latina.”
Com as crises consecutivas nos mercados emergentes, os empregos escassearam para profissionais da área, e Póvoa precisou voltar. No Brasil, foi convidado para ser o segundo na hierarquia da pequena asset do ABN, recém-chegado ao País. Em pouco tempo, porém, o economista viu-se à frente de uma oportunidade bem maior: seu futuro chefe desligou-se e em seguida o banco adquiriu o Real, ganhando novo porte. “Como os fundos de renda variável iam muito bem, fui promovido. Depois, me tornei diretor de investimentos. Tudo na vida é um misto de competência e sorte.”
Aos 41 anos, Alexandre Póvoa acumulou uma experiência em gestão de recursos que decidiu compartilhar em um segundo livro, desta vez uma “autobiografia profissional junto com teoria”. No volume de 450 páginas, com lançamento previsto para novembro, ele promete não fugir das polêmicas, questionando, por exemplo, o objetivo dos fundos socialmente responsáveis, e dando a sua visão da crise de 2002. “Falo dos erros de cada um, dos fundos, da CVM. A ideia não é polemizar, mas passar para os profissionais da área aquela e outras experiências.” Para explicar sua motivação, Póvoa repete um pensamento que o acompanha: “O desafio de qualquer profissional é fugir do lugar comum. É mais natural do ser humano convergir à média do que desafiar o status quo. Não ia escrever um livro e não dizer nada de novo.”
É assim que ele acaba deixando a modéstia de lado e reconhecendo que não foram apenas a disciplina e o planejamento que o fizeram “chegar lá”. “Este meu viés de tentar sair da média foi fundamental.”
3x4
Rotina – Quando não está viajando, chega ao trabalho às 8h e sai às 20h. Não abre mão de praticar esportes e ver o Flamengo jogar no Maracanã. “Tem gente que não consegue, mas faço muita coisa: dou aulas, escrevo, jogo basquete, futebol e tento não sacrificar o meu tempo com a família.”
O que o tira do sério – Não gosta de errar nem de perder. “Isso veio do esporte. Nunca acreditei no lema de que o importante é competir. Para mim, o importante é procurar se destacar, estar na linha de frente, de forma honesta.”
Uma vitória – Ter saído de um banco de porte (ABN Amro) para me firmar em um lugar menor. “Quem tem uma grande marca por trás fica sempre na dúvida se é grande por causa da marca. Nestes cinco anos, mesmo sem uma placa tão forte, continuei sendo escutado e reconhecido.”
Momento mais difícil – Cita três: quando desistiu da carreira de jogador de basquete, quando não conseguiu trabalhar nos Estados Unidos depois do MBA, e a crise de marcação a mercado de 2002. “É muito duro quando você está construindo algo e aquilo é interrompido.”
Hobby – Praticar e ver esportes.
Conselho para quem está começando – Pensar no legado que vai deixar, em como vai contribuir para mudar e melhorar a indústria ou a profissão em que está inserido. “A felicidade profissional está nisso. O resto é consequência.”
Paixões – Deus (“Sou católico e rezo muito”), família (esposa e dois filhos), esportes em geral (e em particular o Flamengo, uma paixão que às vezes “foge do controle”) e a profissão (“Adoro o que faço”).
Como lida com o excesso de informação – Filtra o tempo todo. Lê o Globo e o Valor econômico, muitas revistas especializadas, recebe de cinco a dez relatórios por dia e entre 300 a 400 e-mails. “Apago uns 70% sem ler. As reuniões com a minha equipe são fundamentais no processo decisório.”
Uma admiração – Além dos ídolos esportivos, se inspira em duas figuras públicas: Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. “Eles não abriram mão dos conceitos em que acreditavam.”
Livro de cabeceira – Não tem muito tempo para ler, e seu último livro foi Redescobrindo Ben Graham, sobre o “pai” da análise fundamentalista, que ainda será lançado no Brasil. “Fui convidado para escrever o prefácio.”
Como se imagina daqui a dez anos – “Quero estar inserido numa empresa de asset, que espero que seja esta, e também colaborando para o desenvolvimento da indústria de fundos e do mercado de capitais em geral.”
Outras profissões que gostaria de ter – Atleta profissional e jornalista. “Sempre gostei de escrever.”
Um sonho – Ser presidente do Flamengo. “Comecei a minha vida nas páginas esportivas, fui para as econômicas e gostaria de um dia voltar para a seção de esportes dos jornais.” Já foi diretor de basquete e participa da vida política do clube. “Mas não tenho o menor tempo para me dedicar a este sonho.”
Para relaxar – Rezar, praticar esportes, brincar com os filhos (de 4 e 8 anos).
Sonho de consumo – Só tinha um, que realizou no ano passado: comprar uma cadeira cativa no Maracanã. “Foi difícil achar duas juntas, corri atrás e consegui.”
Fim da crise ou nova bolha? – Nem um nem outro. “Os movimentos de queda e alta que vimos recentemente vão ser padrão, não mais exceção. O que precisa ser avaliado é o nível de preço atual, e não existe bolha. Mas também não é o fim da crise, porque pode haver correções. O que está afastada é a possibilidade de debacle.” |